Cheguei perto, mas nunca de fato entrei para alta sociedade. Por pura preguiça, lógico. Não me entenda mal. Oportunidades não faltaram, o único problema residia na ausência de vontade para durar.
Sempre estive ao lado de belas mulheres. Senhoritas cultas cujos carros custavam bem mais do que o apartamento onde eu moro. Os maridos, coitados, estavam ocupados demais com seus egos para perceber o intruso nos seus aniversários.
O que antes era diversão se tornou um passatempo vazio, sem futuro algum. Foram aventuras que somente atiçavam a felicidade e encareciam a cada renovação.
Essas experiências iniciaram graças à minha passagem inocente por um colégio particular de Porto Alegre. Por lá já me sentia como um peixe fora d’água até estabelecer contato com aqueles que seriam meus amigos por toda vida escolar.
A adaptação não foi nada fácil. Exigiu muito da minha habilidade cênica que eu, até então, nem sabia que existia. Parecia um Lázaro Ramos. Do teatro para casa, da casa para o teatro. Infelizmente, sem uma Taís Araújo para viver a vida.
Estava encantado. Tudo era novidade, tudo era bom. A minha realidade – só eu sabia – era outra. Enquanto meus colegas trocavam dicas sobre Mário Bros no Super Nintendo, eu me sentia extasiado com a agilidade azul do Sonic no Mega Drive.
Mais adiante, enquanto eu assoprava a fita do Mortal Kombat III no NES, meus camaradas já se revezavam jogando 007 no Nintendo 64. Era triste. E ficou ainda pior quando inventaram o PlayStation. Estreei no Winning Eleven em grande estilo.
Uma vitória surpreendente e acachapante na casa do adversário. A extensão do meu domínio ia até as quadras do mundo real. Lá eu brilhava como nunca. Decidia, cobrava, apoiava. Fazia pouco caso dos coadjuvantes. Mas era só sinal ecoar e eu voltava a ser normal.
Um perdido, num mundo que não era para mim. Fui mal acostumado a integrar rodinhas de conversa que não me completavam. Provocavam apenas risadas falsas, convites feitos na última hora, todos centralizados no meu talento futebolístico.
Não era recomendável, contudo eu gostava. A diversão permanecia na ordem do dia e a responsabilidade podia ser tratada como algo para depois. Por muito tempo atrasei amores verdadeiros para proteger as aparências. As desculpas eram as mais terríveis.
Na faculdade acontecia a mesma coisa ou até pior. Além de escolher o curso errado, eu fazia dois estágios para dar conta das amizades luxuosas que conquistei. Tinha atração por frequentar lugares e ver pessoas que só fariam mal para a minha saúde financeira. Paguei meus pecados quando voltava das festas.
Sempre sozinho, sem ninguém para me abraçar e me desejar, do fundo do coração, uma boa noite. Não era raro estar num canto, com uma garrafa de champagne pela metade e a taça vazia. Minutos antes eu já havia feito um brinde particular. Acabara de usar a bebida dos festejos para celebrar a minha solidão.
De tanto flertar com a alta sociedade e, claro, depois de tantas decepções eu acumulei uma única vitória: Karina. Tivemos um relacionamento meteórico, mas que deixou cicatrizes. Dividíamos algumas afinidades que em seis meses foram varridas para debaixo do tapete.
E eu também não suportava a minha sogra, Maria Elena, com a sua mania irritante de diminuir tudo que eu realizava. Em certas ocasiões, a mulher tinha o costume de colocar palavras na minha boca, como se fosse uma mãe dando sopa de letrinhas ao filho no auge do inverno.
Fiquei abatido ao notar a atitude passiva da minha própria namorada. Depois, em Imbituba, durante uma conversa franca com meu sogro, Jorge, entendi que o namoro não passava de um castelo de cartas. Já não tinha argumentos para conter um dos 100 brasileiros mais influentes de 2009.
Ainda assim, o homem fez questão de deixar as portas abertas para mim. Disse que se eu precisasse de uma palavra amiga, saberia onde encontrar. Dediquei-lhe um sorriso e com toda educação do mundo agradeci. Ali mesmo decidi que não iria mais voltar.
Hoje, estou completamente modificado. Feliz. Amigos sinceros não me faltam. Champagne somente no final do ano e baladas até R$ 30. Agora tenho uma tara pela simplicidade. É por ela que eu me apaixono, é por ela que eu me derreto e é com ela que eu fico.