Publicado por: Luiz Felipe | 13/11/2009

Mulheres da minha vida

A história em si não tem fim, mas começou mais ou menos dessa forma. Doze sorrisos. Doze olhares. Doze essências de sedução me transformaram num guerreiro derrotado há pouco tempo. Um legionário abatido no campo de batalha, com a flecha da conquista cravada em seu peito. Ao frequentar certos lugares e conhecer certas pessoas, me alistei para descobrir mundos diferentes, belezas singulares e um só sentimento.

Maravilhado, admirei jeitos de ser e entendi que eram produtos de uma mistura sublime, diluída em shampoos, perfumes e brilhos labiais. A tabela periódica pouco adiantou porque ainda ignoro os elementos desta composição. O meu conhecimento da matéria termina aqui. No entanto, acredite quando eu digo que foi a Química que me levou até elas.

Abraços e beijos serviram e servem como passaportes eternos para seus territórios. O trajeto até esses bilhetes foi tortuoso. Levei minha criatividade ao limite extremo. Com a pretensão de um alquimista, combinei ambição e perspicácia na medida certa. O simples e o fácil estavam fora de questão. Os desafios colocavam medo, mas justamente esse temor fez com que o triunfo fosse tão gratificante.

Parti, de mochila nas costas, como se fora um cavaleiro zodiacal, destinado a buscar a sua armadura de ouro. Talvez o meu objetivo aqui não fosse tão somente encontrar Atena. A minha saga era outra e envolvia mais de uma deusa. Como no desenho, eu contei com a ajuda da minha constelação para passar pelas doze casas. Não encontrei nelas adversários, e sim paradas obrigatórias da alma. Fui para encantar e acabei encantado.

Cercado de entusiasmo, narrei histórias para agradar as mulheres que entraram de vez na minha vida. Preguei peças, fiz shows de humor, criei personagens, com o propósito de chamar atenção. De início, tais artifícios não funcionaram. Na sala de espera, permaneci refém da escolha que foi e sempre será delas. Nada aconteceria se, no meio do caminho, eu fosse atropelado por um não. Nada eu seria sem o sim.

E o sim, senhores, todos nós sabemos que faz toda a diferença. Faz surgir um universo de possibilidades, onde podemos brincar com o tempo: reduzi-lo para as aulas chatas ou aumentá-lo para os momentos que nos são mais valiosos. O bom de tudo isso é que em minha memória tenho a oportunidade de reuni-las de uma vez só.

Sem que eu seja interrompido por professores carentes de atenção, por compromissos inadiáveis e até pelos namorados indiscretos, que reclamam as suas presenças através dos celulares. Nas entrelinhas, somos nós e mais ninguém. Nomes aqui são desnecessários e insuficientes. Prefiro lembrar de seus rostos, um a um, da forma mais completa e absoluta possível.       

A começar pela garota que adquiriu status de obra-prima, graças à genialidade de Jorge Amado. Transformou a sua companhia em obrigação, embora tenha me contrariado, quando resolveu morar nos States. No decorrer do nosso reencontro, matou a saudade e trouxe de volta, em cores vivas, a outra parte do meu Ensino Fundamental, que eu havia perdido durante a 8ª série.

Distraído, na época, eu aprendia que somente meninas de bom gosto usavam bolsas Vitor Hugo. A senhorita da vez me fez ignorar o espelho de classe e voltar para fundo da aula, apenas para bater papo. Com a voz delicada, marcou de tal forma, e quando dei por mim, escrevia cartas para, no futuro, ser surpreendido com valiosos cartões postais.

Já formado, sem rumo, porém no curso certo, recebi a companhia perfeita para dividir as risadas que só o Unificado proporciona. Entre um “colóquio” e outro, descobri que o vestibular mais difícil era o dela. Estudei apenas um assunto e acabei fora da UFRGS, mas com a vaga garantida no coração da moça. Fui taxado de mala e agora carrego comigo traços de uma personalidade irresistível.

O resultado das minhas escolhas reservou a PUC como último destino da minha trajetória. Devidamente matriculado e, de certa forma, indignado pelo valor das mensalidades, fui conhecer o vilarejo chamado Famecos. Diziam ser a morada de fadas comunicativas, feiticeiras criativas e bruxas metidas a promoters.

Em 20 minutos, a “Dinâmica: Comunique-se” me aproximou de duas morenas interessantíssimas. Conforme o jogo, a cor dos olhos me colocou ao lado de Wanylm. Mais tarde, descobri que a mesma tinha o poder de perder coisas e sumir num piscar de olhos. A partir daí, comecei a temer os trabalhos em dupla que o futuro nos reservava.

Do outro lado da sala, troquei palavras com uma pessoa que lembrava a Pocahontas. Optei por colocá-la no meu programa de cotas com o nome de Boo. Nas vezes em que precisei salvá-la, exigi como recompensa os melhores pães de queijo do bar. Na volta para casa, discutíamos a relação e os fatos da semana dentro de um ônibus cuja linha jamais existiu.

Já no segundo semestre, tentei desmistificar a musa da zona sul usando a mitologia grega. Não deu muito certo. Nesta passagem, o mistério ganhou corpo quando imaginei ser o Super Homem sem poderes, enfraquecido por um medo disfarçado de kriptonita.

Recobrei a consciência e as energias através de um pen drive mágico. Um elixir de conhecimento, alegria e carinho. Com a autora dos textos intermináveis, a inspiração foi consagrada como virtude infinita.

Revigorado e surpreendido, aceitei o convite para um projeto completamente gaúcho. Até hoje, quando abro as páginas do EsporTCHÊ!, sinto orgulho da parceria fundamentada neste trabalho. Enfrentamos o azar no instante em que a letra “L” nos afastou do Mestre Leonam.

Encontramos a felicidade acadêmica pelo mesmo orientador e nos dias de celebração nada de champagne ou vinho. “Amigo, para ela uma Smirnoff Ice e para mim uma Coca-Cola, com limão e gelo, por favor.”

Para um suburbano como eu, a formatura não reservou passagens para Austrália, Espanha ou Londres. Então decidi ir mais longe, e nem precisei chegar ao Salgado Filho para isso. Cachoeirinha foi o meu paraíso particular no mais divertido dos finais de semana. Não há razão para risos porque estive ao lado da princesa mais apressada do Sindicato. Talvez a única da corte que desconheça a 3ª Perimetral.

Num mix primoroso entre realidade e arte, descobri que o sorriso perfeito não está apenas na Monalisa de Da Vinci. Já que o assunto é cultura, esqueça também as histórias sobre a Idade Média. A donzela que admiro deve ser protegida de escadas e trajes de mergulho tamanho PP. Essas são tarefas que, infelizmente, já não fazem parte da minha jurisdição.

Sem viajar para o interior, conheci uma menina em três passos. Iniciei com o usual: um convite para jantar num boteco requintado. Percebi a sua simplicidade quando pediu batatas fritas com queijo, uma vez que a fome não era grande.

 Ao natural, dançamos salsa, bastando apenas um tajito de mentira para o nosso entrosamento ser elevado à segunda potência. Encerramos a noite com vinho, brindando o sucesso de Bibi e o talento de atores escolhidos a dedo.

Na intenção de finalizar um texto, fui tentado a criar um novo conceito para elegância feminina. Tão preocupado em matar a pauta, esqueci de observar. A resposta veio diretamente de Novo Hamburgo, radiante e, se bem me lembro, dirigindo um Nissan prata.

Conversamos sobre tudo. Porto Alegre, Buenos Aires, Califórnia e encerramos o papo em Paris. Parece mentira, mas tenho a nítida sensação de que ontem encontramos o fruteiro da madrugada.

Entre modelos, advogadas e jornalistas aí estão as divas que aprendi a cultuar. Aos homens que tiveram o prazer de conquistá-las, ofereço os meus respeitos. É a prova cabal de que não sou o único a enxergar nobreza em mulheres supostamente comuns.

Confesso ter começado o post como brincadeira, no intuito de trazer aqui boas lembranças. Agora, enquanto digito, estou esgotado. Mas façamos assim. Vou viver um pouco para, em outra oportunidade, contar mais sobre os anjos da minha vida.

Publicado por: Luiz Felipe | 23/08/2009

Vanderson

Vanderson do Nascimento Cleiton nasceu para vencer. Claro, com esse nome a vitória talvez demorasse um pouco para vir, mas era, acima de tudo, um batalhador. E como tal, não poderia deixar que o exagero cometido na data em que foi registrado o atrapalhasse. Desde cedo acostumou-se a trabalhar em dois empregos. Aos 23 anos, estudava e ajudava o pai a manter a pequena loja da família no Centro de Porto Alegre. À noite era o garçom mais novo do Bar do Amiguinho, um dos lugares mais aconchegantes para casais em busca de intimidades, para colegas depois do expediente e pessoas ricas querendo aventura num boteco que ainda adotava sistema do caderninho. Para os mais chegados, lógico.

Sim, o Bar do Amiguinho era um coração de mãe. Aceitava tudo e todos. Às vezes ostentava tanta popularidade que causava inveja a outros botecos da cidade, com melhor localização. O dono, Seu Américo, desconhecia a razão para tantos clientes, no entanto, quem tinha o costume de ir ao lugar sabia que estava no atendimento dos garçons o segredo para o repentino sucesso. O carisma dos atendentes estava personificado na figura de Charles Carioca. Extrovertido e de bem com a vida, sempre ganhava a clientela com a malandragem característica do Rio de Janeiro.

Chiava que era brincadeira. Conseguia colocar na palavra oito um chiado. Durante uma dessas carioquices ganhou uma gaúcha, a Verônica. E a guria fez o malandro ficar de vez na Capital. Ele que tinha planos de voltar ao Rio e frequentar a quadra da sua escola de samba, o Salgueiro, agora tinha um belo motivo para ficar. Segundo o próprio Charles, sua mãe o alertou, durante o namoro, para não fazer bobagens, porque a menina era a melhor coisa que tinha lhe acontecido. Charles obedeceu.

Mesmo compromissado, o flamenguista de coração exibia o seu talento como ninguém. Claro, sob os olhares azuis e atentos de Verônica, que às vezes dava uma incerta no Amiguinho. Não esquecia o que Charles dissera, quando a viu pela primeira vez. “A beleza das mulheres gaúchas não acaba, se renova. E você é a prova disso”, cravou. Para não perder a exclusividade, a menina decidiu cuidar do que era seu. Não que Carioca fosse desobedecer a mãe, mas Verônica queria aquele chiado só para ela. Um sentimento egoísta, mas, compreensível.

Como imaginava que a relação iria acabar em casamento, Charles decidiu passar adiante sua habilidade. Não queria deixar o Amiguinho sem as suas qualidades, por isso quis replicá-las. Dessa forma, adotou Vanderson como pupilo. O aprendiz começaria em desvantagem, pois não teria as carioquices para lhe ajudar, mas nem por isso a tarefa seria difícil de assimilar, uma vez que o garoto aprendia rápido. Carisma não poderia ser obtido da noite para o dia, era uma questão de convívio, de relações, de sorrisos e ações que Charles Carioca estava disposto a ensinar ao seu colega de trabalho.

O noivado de Verônica e Charles durou cerca de um ano e meio. Isso sem contarmos os seis meses anteriores em que decidiram dividir o mesmo teto. Foi o tempo suficiente para transformar Vanderson. As lições aconteciam no dia-dia, durante e após a labuta. O mais legal foi ver que o garoto abraçou a ideia, às vezes abdicava do seu tempo de estudo para aprender com Charles. E era ambicioso. Entendia que a timidez da adolescência não iria trazer muitos frutos, assim, se entregou de corpo e alma. Imaginava-se na Faculdade de Administração. Depois de formado, abrindo negócio e até concedendo palestras. O sucesso do Amiguinho confirmava a tese de que agora Charles poderia casar e até ausentar-se durante um período.

Apesar de ter progredido no trabalho e ver a sua personalidade evoluir, Vanderson ainda tinha um desafio interno. Algo que nem Charles poderia modificar, somente ele. Por influência dos pais, o garçom mais novo do Amiguinho era um cara extremamente organizado, certinho, por vezes, metódico. Tinha medo de lidar com a surpresa ou com o inesperado. Ficava nervoso e até travava quando chegava a hora de fazer algo importante. Isso o incomodava, tanto que no instante em que precisava falar com alguma garota bonita não sabia o que dizer.

Nos últimos dois meses, Amanda era a principal razão do nervosismo de Vanderson. Cada vez que avistava a menina ele suava frio, tremia a bandeja, dava um boa noite que mal se ouvia. Era assim. Parecia que todos os ensinamentos de Charles eram anulados pela beleza de Amanda. Para nós era apenas mais uma cliente bonita do Amiguinho, sem problemas. Já Vanderson, enxergava mais. Admirava a sua formosura feita sob medida, criada por alguém que leva muito a sério a arte de encantar. A situação chegou a tal ponto que todos garçons sabiam da paixão do rapaz e por isso deixavam que somente ele atendesse a moça.

No Amiguinho nada ocorria por acaso. Os colegas de Vanderson faziam isso para que ele perdesse a timidez em relação à Amanda. Lembra quando eu disse que carisma era uma questão de convívio, de relações, de sorrisos e ações? Pois é, o embaraço arrefeceu e deu lugar à espontaneidade, à intimidade e é tão bom quando é assim. A paixão aumentava toda vez que a menina resolvia aparecer com as amigas no bar. A atração ficou perigosa, descomunal e precisava vir à tona. O aluno consultou o mestre para saber como faria a abordagem.

O movimento perfeito que o tiraria da posição de garçom e o colocaria imediatamente ao lado de Amanda, seja durante uma troca de olhares na sala de cinema ou na lembrança carinhosa de um porta-retrato. A resposta de Charles veio baseada no potencial recém descoberto em Vanderson. “Deves improvisar”, disse. Não acrescentou mais nada. O conteúdo dessa afirmação dizia ao menino para seguir em frente, porque ele tinha condições para tanto. E assim aconteceu na semana seguinte. Durante uma sexta-feira à noite, ao colocar os olhos em Amanda, Vanderson comunicou aos colegas. “Vou improvisar”.

Eu, que já estava de saída, parei e pedi a saideira quando recebi o sinal de Charles para ficar atento. O garçom mais novo do Amiguinho só concebeu o que ia falar enquanto caminhava na direção da sua garota. Diz ele que o rosto angelical de Amanda fez questão de clarear e colocar em ordem as suas palavras. Confesso que nessas situações tenho apreço pelo improviso. O único problema dele é possuir a obrigação de dar certo. E faço a correção. Vanderson do Nascimento Cleiton não tinha nascido apenas para vencer. Depois daquela sexta-feira, nasceu também para conquistar.

Postagens Antigas »

Categorias