Publicado por: Luiz Felipe | 07/02/2010

Flertando com a Alta Sociedade

Cheguei perto, mas nunca de fato entrei para alta sociedade. Por pura preguiça, lógico. Não me entenda mal. Oportunidades não faltaram, o único problema residia na ausência de vontade para durar.

Sempre estive ao lado de belas mulheres. Senhoritas cultas cujos carros custavam bem mais do que o apartamento onde eu moro. Os maridos, coitados, estavam ocupados demais com seus egos para perceber o intruso nos seus aniversários.

O que antes era diversão se tornou um passatempo vazio, sem futuro algum. Foram aventuras que somente atiçavam a felicidade e encareciam a cada renovação.

Essas experiências iniciaram graças à minha passagem inocente por um colégio particular de Porto Alegre. Por lá já me sentia como um peixe fora d’água até estabelecer contato com aqueles que seriam meus amigos por toda vida escolar.

A adaptação não foi nada fácil. Exigiu muito da minha habilidade cênica que eu, até então, nem sabia que existia. Parecia um Lázaro Ramos. Do teatro para casa, da casa para o teatro. Infelizmente, sem uma Taís Araújo para viver a vida.   

Estava encantado. Tudo era novidade, tudo era bom. A minha realidade – só eu sabia – era outra. Enquanto meus colegas trocavam dicas sobre Mário Bros no Super Nintendo, eu me sentia extasiado com a agilidade azul do Sonic no Mega Drive.

Mais adiante, enquanto eu assoprava a fita do Mortal Kombat III no NES, meus camaradas já se revezavam jogando 007 no Nintendo 64. Era triste. E ficou ainda pior quando inventaram o PlayStation. Estreei no Winning Eleven em grande estilo.

Uma vitória surpreendente e acachapante na casa do adversário. A extensão do meu domínio ia até as quadras do mundo real. Lá eu brilhava como nunca. Decidia, cobrava, apoiava. Fazia pouco caso dos coadjuvantes. Mas era só sinal ecoar e eu voltava a ser normal.

Um perdido, num mundo que não era para mim. Fui mal acostumado a integrar rodinhas de conversa que não me completavam. Provocavam apenas risadas falsas, convites feitos na última hora, todos centralizados no meu talento futebolístico.

Não era recomendável, contudo eu gostava. A diversão permanecia na ordem do dia e a responsabilidade podia ser tratada como algo para depois. Por muito tempo atrasei amores verdadeiros para proteger as aparências. As desculpas eram as mais terríveis.

Na faculdade acontecia a mesma coisa ou até pior. Além de escolher o curso errado, eu fazia dois estágios para dar conta das amizades luxuosas que conquistei. Tinha atração por frequentar lugares e ver pessoas que só fariam mal para a minha saúde financeira. Paguei meus pecados quando voltava das festas. 

Sempre sozinho, sem ninguém para me abraçar e me desejar, do fundo do coração, uma boa noite. Não era raro estar num canto, com uma garrafa de champagne pela metade e a taça vazia. Minutos antes eu já havia feito um brinde particular. Acabara de usar a bebida dos festejos para celebrar a minha solidão.   

De tanto flertar com a alta sociedade e, claro, depois de tantas decepções eu acumulei uma única vitória: Karina. Tivemos um relacionamento meteórico, mas que deixou cicatrizes. Dividíamos algumas afinidades que em seis meses foram varridas para debaixo do tapete.

E eu também não suportava a minha sogra, Maria Elena, com a sua mania irritante de diminuir tudo que eu realizava. Em certas ocasiões, a mulher tinha o costume de colocar palavras na minha boca, como se fosse uma mãe dando sopa de letrinhas ao filho no auge do inverno.

Fiquei abatido ao notar a atitude passiva da minha própria namorada. Depois, em Imbituba, durante uma conversa franca com meu sogro, Jorge, entendi que o namoro não passava de um castelo de cartas. Já não tinha argumentos para conter um dos 100 brasileiros mais influentes de 2009.

Ainda assim, o homem fez questão de deixar as portas abertas para mim. Disse que se eu precisasse de uma palavra amiga, saberia onde encontrar. Dediquei-lhe um sorriso e com toda educação do mundo agradeci. Ali mesmo decidi que não iria mais voltar.

Hoje, estou completamente modificado. Feliz. Amigos sinceros não me faltam. Champagne somente no final do ano e baladas até R$ 30. Agora tenho uma tara pela simplicidade. É por ela que eu me apaixono, é por ela que eu me derreto e é com ela que eu fico.

Publicado por: Luiz Felipe | 04/01/2010

Monografia da Atração

O que eu pretendia para nós era lindo. Seria como uma monografia. Um trabalho previamente planejado, extenso, repleto de argumentos, páginas e notas de rodapé. Claro, com alguns percalços.

No entanto, teríamos capítulos próximos da perfeição, a respeito de diversos assuntos e situações. Nem cheguei a pensar no fim. Imaginei que seria prudente te consultar antes. Mas já adianto: acho totalmente desnecessário.

Por mim, ficaríamos concentrados no desenvolvimento a vida inteira, desvendando um ao outro, sem nos preocupar com aquilo que os acadêmicos chamam de conclusão.

Meus amigos criativos anteciparam o carnaval e nos pintaram como um casal de mestre-sala e porta-bandeira. Eles, os examinadores, já entendiam que neste quesito a nossa nota poderia ser dez.

Não sei bem o que houve. Algo deu errado. Escolhemos orientadores diferentes e verdade seja dita: nem passamos da introdução. Agora, o meu pessimismo teima em me dizer que não seremos mais do que um release curto e grosso.

Daqueles que são escritos por estagiários preguiçosos, carentes de criatividade e com problemas sérios de hierarquia. Se continuarmos nessa balada podemos esquecer a formatura. Até a comissão sabe que estamos a perigo. Não temos música e muito menos fotos.

Para começar, não atingimos o número ideal de horas complementares. Nas palestras em que te convidei tu não foste ou negaste o convite. E quando eu quis saber a razão da negativa, fugias de mim como um nerd do G2.

As tuas respostas eram completamente descontextualizadas e fora da realidade. Quando começamos, eu te avisei que a nossa mono não cresceria apenas por MSN. Desesperado, consultei o Mestre Leonam, que sugeriu a revisão dos objetivos. O Necchi disse a mesma coisa, mas pediu que eu deixasse a tarefa de molho. Segundo ele, a pausa revelaria novos horizontes.

Tenho a desconfiança de que a metodologia está errada e a tua análise sobre a minha pessoa permanece com informações absurdamente desencontradas. Confesso estar perdido e sem saber quem mais procurar.

Passei lá na coordenação e a Cris Finger me disse que a tua professora, Neka Machado, tem alguns livros que tratam de Gestão de Crise. Nós dois sabemos que não é para tanto, mas não custa nada passar na sala dos professores. Gostaria de me certificar de que o caso tem solução. A última coisa que eu quero é apelidar o nosso resumo de “O começo do fim”.   

Se lembrarmos com cuidado, vamos redescobrir o início promissor que tivemos quando elaboramos o nosso anteprojeto. Tudo funcionava as mil maravilhas. O modo como cada palavra-chave sintetizava o nosso diálogo era fascinante.

Encontrar soluções parecia mais fácil. Bastava uma ou duas risadas e o problema morria sufocado, sem qualquer chance de defesa. Bons tempos. Tempos onde eu, secretamente, arquitetava o sumário, na tentativa estúpida de te impressionar.

Talvez tenha sido um erro precipitar isto. Talvez tenha sido esta a minha pior distração. Mas em momento algum quis prejudicar o nosso trabalho. Quis sim criar uma outra dimensão de afinidade.

Um lugar no qual não existiriam normas da ABNT e a nossa mono fosse fundamentada pelos melhores romances que a biblioteca já disponibilizou. O número de obras consultadas pouco importaria. O foco seria a qualidade.

Chamaríamos a atenção pelos agradecimentos. Ali ficariam expostos aqueles que torceram e torcem por nós, afinal uma boa monografia não nasce apenas de leituras e de horas na frente do computador.

Surge também por pensamentos positivos, cobranças indiscretas via Messenger e pelas dicas especiais de conselheiras dispostas a ajudar. Em suma, serviríamos como material de apoio para calouros apaixonados, recém iniciados no mundo perigoso da atração.  

Até aqui tudo parece magnífico e bem apresentado. A lástima está na possibilidade. A pesquisa, na sua maioria, está baseada em hipóteses. Existem perguntas que não foram respondidas.

As nossas citações escolheram sinuosos pontos de interrogação ao invés de abraçar os pontos de exclamação. Meus amigos que antes incentivavam, atualmente, dão a entender que devo desistir da disciplina e abandoná-la de vez.   

Eu ainda duvido que esta seja a melhor opção. Nunca rodei em matéria alguma e não será justamente agora que vou começar. Prefiro simplesmente ficar em compasso de espera.

Aguardando que a coincidência nos una uma vez mais, como nas oportunidades em que te encontrei nos corredores do nosso prédio.

Segunda-feira, sem falta, falarei com a Ana Claudia. Trancarei a cadeira, com a desculpa esfarrapada de que vou concluí-la no próximo semestre. 

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